sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Olhares Compridos

Olhar

Mercadora de olhares eu vou


e vejo os teus olhos marcadores de doce desejo.
O beijo começa sempre num olhar comprido.
Depois
depois é que tudo faz sentido.









Tenta

As tentações são portas abertas.
Invadem um, dois, três…
Todos os sentidos de seguida.
Penetram como desejo e são-no.

Denunciador, denso, redondo,
o beijo começa no tal olhar comprido.
Então eu digo,
cumpre em mim os olhos que me dás
mesmo quando,
de súbito,
numa despedida
ameaças lábio a lábio
o definitivo.





Caminho

A lezíria abre sempre o olhar do sol.

O silêncio veste o olhar
de todas as horas sorridentes.
Os murmúrios vestem a alma
de todos os momentos a sorrir.
Loucuras de paixões.
Cavalgamos sem horizonte nem tempo.
Acompanhadas solidões.










Sentir

No horizonte partilhado da água
No lugar plano
pressentindo o Tejo deitado nos braços da lezíria
onde a lua se ausentou para não nos envergonhar
e as perseidas choveram escondidas no calor das nuvens
encobriram-se olhares compridos que senti
Memórias seladas
em maré de toques boca a boca lidos.






Nómada

Pastora de estrelas sou.
Conto-as à noite no firmamento mais a sul
como nas vezes que me sorris
quando imito os mistérios das asas e das vagas
e tudo me parece um céu azul.









Meu

Demoras-te na minha planície
como cavalo de viril galope
em raso e largo voo de filho do vento.
Quero-te assim
em ímpeto de fogo
sobre o lago onde me inundaste
a mim
e à pele que me veste o corpo
onde, sábio, mergulhas a mão que me despe.









Dias

Cúmplices de eternos instantes
somos ao fim de uma noite mil vezes mil alvoradas
e ficamos corpo no corpo
até que a lua abandone o céu.
Agasalha-me então tua carícia
como secreto e misterioso véu.
Felicitando a chegada do sol
e do nosso próximo instante












Espera

De mim nunca partes.
Depois de ti o sol ficou mais frio.
Fico como brisa na copa das árvores.
Desvaneço e só os pássaros guardam os meus segredos
É então que a tarde à tarde me tarda
Mesmo que já não tenha as pálpebras a taparem fontes
Se viesses agora...
Não te conto nem me contes!



Mistério

Sabes o que sussurra o vento nos arrozais?
Fala-me da saudade de teu sopro rente a mim.

És memória permanente
onde navego
onde flutuo
onde te chamo mar?











Abraço

Pela encosta de teus ombros
meus beijos redondos poisam como passos.
Romeira sou dos mil versos que te canto
ao encontro de teu estro.
E és sempre abraço
Mas haverá lugar para tanto tempo no instante do teu braço?






Amar

Dias gulosos de beijos
tatuagens de ar que gravaste em mim
como verónicas cingidas à minha passiva investida.
Teu cheiro tua pele tua boca tuas mãos
qual quadrilha de gestos bandarilhando um desejo bravo.
Tu em traje de nu doirado
Numa faena a arrebatar
o meu mais fundo dentro
e a rematar
passes de peito.

Agora a espera por muito mais
Mais horas
Mais beijos
Mais sorrisos
Mais silêncios
a preceito.


Arte

Terá nome este dia?
Vieram todos os ventos da terra
todos os astros do céu
rios prados searas montes escarpas
e viram-nos.
Viram-te
a roçar minha pele
Não há nome.
Podia ser tudo.
Até um momento antigo
que reinventasses
e que eu inventei contigo.